A santa que cativou o Recife

http://s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2015/07/16/20150716170810.jpg

Maria, a mãe de Jesus, é conhecida por mais de mil títulos. Mas até a próxima terça-feira, no Recife, ela responde pelo nome de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade. É ela quem escuta os pedidos silenciosos de Luzia Ramos da Silva, as súplicas de Luzia Maria Sérgio, os agradecimentos de Mário Cavalcanti de Albuquerque e as preces dos mais de 300 mil devotos que deverão participar da 323ª Festa do Carmo na basílica dedicada à santa, no Centro da capital pernambucana.

Voluntária num abrigo para idosos, Luzia Maria Sérgio, 59 anos, recorreu à Virgem do Carmo quando teve um problema nos joelhos, oito anos atrás. “Passei dois anos sem andar, minha mãe do Carmo me ouviu e hoje estou firme e forte para pagar minha promessa de acompanhar a procissão descalça até o dia que Deus quiser”, declara Luzia, moradora de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. Ela disse que também alcançou outra graça depois de perder os movimentos dos dedos por causa de uma doença.

“Minhas mãos ficaram fechadas, pedi que me curasse porque eu ainda tinha uma missão na Terra, queria voltar a ser voluntária no abrigo, orei com fé e fui atendida”, afirma Luzia Maria, sem reservas para compartilhar as conversas com Nossa Senhora do Carmo. Enquanto isso, Luzia Ramos da Silva, 70, prefere guardar no coração os pedidos que faz à santa, elevada a padroeira do Recife em 1909 pelo papa Pio X. Ela divide o título com o franciscano Santo Antônio, padroeiro da cidade e festejado em 13 de junho.

Luzia Ramos mora em Nova Descoberta, bairro da Zona Norte do Recife, e tem devoção a Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora da Conceição. “As duas são uma só, a mãe de Cristo, peço tanta coisa que nem lembro. Tudo a gente alcança, mas na hora delas e não na hora que a gente quer”, pondera. “Tenho um motivo especial para ser devota das santas, mas não posso contar, foi uma promessa que fiz para um filho”, diz Luzia, enquanto assistia à missa.

A veneração à Virgem do Carmo vem desde a Idade Média com as peregrinações ao Monte Carmelo (Israel) e se espalha pela Europa, informa o historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco Severino Vicente da Silva. “No Brasil, essa devoção está ligada às autoridades governamentais e começa quando os primeiros carmelitas chegam a Olinda (1580) e recebem um terreno para se estabelecerem. Nossa Senhora do Carmo era a santa de devoção do governador, ele passa a devoção para a família e também influencia a comunidade, no período colonial as pessoas seguem o caminho dos seus senhores”, avalia o professor.

“Nossa Senhora é uma só mulher com várias representações, cada nome traduz as diversas expressões da maternidade da mãe de Cristo, a mãe que de tudo cuida. A predileção por uma ou por outra depende do gosto de cada um e de como essa história é apresentada à população”, acrescenta Severino Vicente da Silva.

Para o reitor da Basílica do Carmo do Recife, frei Rosenildo Alexandre, a devoção está vinculada às necessidades dos fiéis. “As pessoas se identificam com aquilo que a imagem traz e representa”, destaca. No começo do século 20, diz ele, Nossa Senhora do Carmo tinha tantos admiradores que partiu do povo a proposta de transformá-la em padroeira do Recife. Essa história está contada na exposição Rainha de Pernambuco – Uma memória da Coroação Canônica de Nossa Senhora do Carmo, em cartaz na basílica até setembro.

Até amanhã, a mostra pode ser visitada em três horários: 9h às 11h30, 13h às 16h30 e 18h às 20h. Depois, só ficará aberta pela manhã e à tarde. A 323ª edição da Festa do Carmo é dedicada ao centenário da coroação canônica da imagem da santa, destaca frei Rosenildo. A distinção foi concedida pelo papa Bento XV e a coroação aconteceu no dia 21 de setembro de 1919 na frente da Faculdade de Direito do Recife, na Boa Vista, Centro da cidade.

Os carmelitas aproveitam a Festa do Carmo, de 6 a 16 de julho (dia da santa, dia da procissão e feriado no Recife) e pedem aos fiéis ajuda para comprar os novos sinos da igreja. “Precisamos de R$ 138 mil para a aquisição de quatro sinos e conseguimos apenas 20% desse valor, até agora. Já recebemos dois e faltam chegar mais dois, a inauguração será em 21 de setembro”, diz o frade. Ele também está empenhado na obra de pintura da fachada da basílica e do convento, no Pátio do Carmo, bairro de Santo Antônio. “A prefeitura e o governo do Estado estão se mobilizando para nos auxiliar na pintura do prédio”, comenta. Hoje, serão rezadas missas às 7h, 8h, 10h, 12h e 15h.

Recifense radicado em Cuiabá (MT), o geólogo aposentado Mário Cavalcanti de Albuquerque, 66, veio à cidade para o aniversário de um neto e se juntou aos devotos para assistir a uma missa na basílica. “Casei nesta igreja em 1980, continuo casado e a felicidade é grande. Vim agradecer, Deus tem sido muito bom comigo. Também comprei duas pulseiras iguais, uma para mim e outra para minha esposa, com uma cruz com a imagem da santa, pedi para benzer e não tiro mais do braço”, declara Mário Cavalcanti.

“A vida católica é tudo para mim e Nossa Senhora do Carmo é uma mãe. De primeiro eu ia às procissões, mas agora só venho às missas, minhas pernas não aguentam mais fazer a caminhada”, relata a devota Luzia Ramos da Silva, 70 anos

“Não faço pedidos, sou mais de agradecer. Pedidos só devem ser feitos quando realmente a pessoa está precisando. Se não está, deixa quieto”, afirma o geólogo aposentado Mário Cavalcanti de Albuquerque, 66 anos

“Tenho um filho que está passando por problemas, estou rezando por ele e pedindo ajuda a Nossa Senhora do Carmo. Com a fé que eu tenho nela, vou alcançar essa graça”, declara a voluntária Luzia Maria Sérgio, 59 anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *