Anvisa faz um alerta de risco para informar sobre superfungo no Hospital da Restauração

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) faz um alerta de risco para informar sobre o terceiro surto de Candida auris (uma levedura, tipo de fungo, que pode causar infecções e é resistente a medicamentos) no Brasil. O caso, confirmado na última terça-feira (11), foi registrado no Hospital da Restauração, no Derby, área central do Recife. Ainda há mais dois casos suspeitos, que estão em investigação laboratorial. A agência destaca que a Candida auris é um fungo emergente que representa uma séria ameaça à saúde pública. Ele pode causar infecção de corrente sanguínea e outras infecções invasivas, podendo ser fatal, principalmente em pacientes imunodeprimidos ou com doenças crônicas.

Além do Recife, a cidade de Salvador já registrou dois surtos provocados pelo superfungo em hospitais: um em 2020 e outro em 2021. “Mas é possível que já houvesse circulação silenciosa de Candida auris antes. Claro que agora a gente vai vasculhar e acompanhar hospitais de grande porte que tenham unidades de terapia intensiva (UTI) nas duas cidades (Recife e Salvador) e ver relatórios para identificação de Candida, a fim de analisar se há ou não o fungo fora dos hospitais onde este agente já foi identificado”, diz o infectologista Arnaldo Colombo, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e referência nacional em contaminação com fungos.

No início da noite de ontem, a Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES) enviou nota à imprensa para detalhar os casos (o confirmado e dois suspeitos) de Candida auris. De acordo com a pasta, os três pacientes não apresentaram sinais relacionados à infecção pelo superfungo, mas tiveram quadro sugestivo de colonização (um deles confirmado). A diferença entre ambas as condições é que a colonização indica que o paciente está com o fungo, mas não apresenta infecção – e esta ocorre quando há presença de Candida auris na corrente sanguínea. “Um exame de urina do homem de 38 anos levantou a suspeita do micro-organismo e, por isso, a amostra foi encaminhada para o Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia (Lacen-BA), que confirmou a presença do fungo na última segunda-feira (10). Outros dois casos estão em investigação”, diz, em nota, a SES.

O paciente de 38 anos com resultado laboratorial positivo para Candida auris foi atendido no HR, no dia 21 de novembro do último ano, na emergência de traumatologia, e foi curado. A alta aconteceu no dia 30 de dezembro. “Frisa-se que o atendimento no HR foi por outra causa, e que o homem estava colonizado pelo fungo. Ou seja, foi feita a identificação da suspeita do micro-organismo por meio de um exame de rotina no hospital. Contudo, não havia infecção provocada por ele”, esclarece a SES.

O infectologista Flávio de Queiroz Telles Filho, coordenador do Comitê de Micologia da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explica que a Candida auris ocorre como infecção hospitalar, que pode causar casos graves de septicemia (condição de resposta exagerada a uma infecção, seja por bactérias, fungos ou vírus) ou apenas colonizar a pele de pacientes. “Mas ela facilmente se mantém dentro de hospitais onde é detectada. É muito difícil de ser erradicada”, frisa.

Um dos casos suspeitos é uma mulher de 70 anos, que foi assistida no HR. A hipótese levantada é que ela também estaria colonizada pelo fungo. O caso está em análise laboratorial. Ela chegou ao HR no dia 24 de novembro e estava em UTI. Teve o exame sugestivo para o fungo no dia 30 de dezembro e faleceu no último dia 5, de acordo com a SES, em decorrência de agravamento de hemorragia no crânio e complicações pela ventilação mecânica. “No momento, aguarda-se o resultado da análise laboratorial do Lacen-BA para confirmar ou descartar a suspeita”, informa a SES.

O terceiro caso suspeito é de um homem de 46 anos, também admitido pela emergência de trauma do HR, no dia 13 de dezembro. Ele estaria colonizado pelo fungo, permanece em UTI e, segundo a SES, sem sintoma relacionado à infecção. O resultado do exame laboratorial sugestivo da unidade hospitalar saiu na última terça-feira (11). Essa amostra será encaminhada para o Lacen-BA.

A Anvisa diz que recebeu, no último dia 3, notificações referentes a dois casos possíveis de Candida auris em pacientes do HR. As amostras de urina do paciente de 38 anos e da paciente de 70 anos foram enviados para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen/PE) e da Bahia (Lacen/BA) – este último fez a identificação do agente infeccioso.

De acordo com o infectologista Filipe Prohaska, o maior problema relacionado ao fungo é que esse agente infeccioso é multirresistente a diversos medicamentos antifúngicos. “É um micro-organismo exclusivamente hospitalar”, diz o médico, que se preocupa com o potencial agressivo desse fungo. Estudos apontam que até 90% dos isolados de Candida auris são resistentes a medicações como fluconazol, anfotericina B ou equinocandinas. Outro motivo de preocupação é que a Candida auris pode permanecer viável por longos períodos no ambiente (semanas ou meses) e apresenta resistência a desinfetantes.

O infectologista Arnaldo Colombo explica que o tratamento da Candida auris é feito com antifúngico. “O único problema é que é um micro-organismo com capacidade de persistir no ambiente hospitalar por muito tempo. Se não forem instituídas medidas de desinfecção adequada, o fungo pode colonizar esses pacientes por tempo prolongado e se tornar resistente a medicações”, alerta o médico.

A Anvisa assegura que, desde a identificação do caso suspeito, o HR estabeleceu as medidas de precaução e adotou ações para prevenção e controle do surto. A Coordenação Estadual de Prevenção e Controle de Infecção de Pernambuco foi notificada do caso suspeito e realizou visita técnica ao hospital, apoiando as ações controle de infecção.