“Pesquisas não têm que acertar, mas influenciam eleições”, diz pesquisadora

"Pode ser que as pesquisas influenciem um plebiscito pelo voto útil", pontuou MaraPor Magno Martins – De Brasília

A cientista política e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (ABRAPEL), Mara Telles, acredita que, na reta final da campanha, os levantamentos terão poder de mudar votos. Em entrevista ao podcast “Direto de Brasília”, ela analisou a situação dos candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o papel da abstenção e a importância do segmento evangélico nas estratégias eleitorais. “Pode ser que as pesquisas influenciem um plebiscito pelo voto útil”, pontuou Mara.

Em toda eleição se discute qual o instituto que mais acerta as pesquisas, qual a metodologia que mais funciona. Existe algo certo nesse ramo de pesquisas?

Primeiramente, pesquisa não é feita para acertar. Circulou uma proposta de criar um selo de pesquisa que acerta. Primeiro que pesquisa não tem obrigatoriamente que acertar, isso é fake news. É o eleitor quem decide, e ele pode mudar de um dia para outro. Um exemplo foi Dilma Rousseff, em 2018, que foi candidata ao Senado por Minas Gerais. Ela estava em primeiro lugar nas pesquisas e ficou em quarto lugar. As pesquisas erraram? Não. Tem fake news, tem propaganda, tem eventos de campanha, tem até a abstenção que é muito importante, tem ativismo político, tem compra de votos. Pesquisa é um produto de mercado para ser consumido pelos políticos, e é consumido como fonte de informação para os eleitores. Eventualmente, se você se aproxima muito dos resultados, vai poder fazer um marketing de acertos, de metodologia, aí é disputa entre os institutos.

Mas elas podem mudar o resultado da eleição, não é?

Sim, as pesquisas mudam o rumo das eleições na reta final. Pode ser que influenciem um plebiscito pelo voto útil. As pesquisas criam cenários e têm a capacidade de impactar nas escolhas, ainda mais se forem forjadas. Não que os grandes institutos façam isso.

Com a sua experiência em campanhas presidenciais, como está vendo a atual disputa?

Nós estamos naquilo que a gente chama de guerra das narrativas, sobretudo com a inteligência artificial. Diversos discursos, muitos deles com informações falsas ou com interpretações mais rasas, circulam nas mídias sociais e nas plataformas privadas. Então o eleitor tem que prestar bastante atenção, porque as variações podem depender de eventos de campanha. Contudo, algo que é comum nas pesquisas, embora alguns mostrem uma diferença um pouco maior, é um empate técnico. Do meu ponto de vista, as pesquisas que foram apresentadas recentemente revelam que o quadro não mudou. Nós tivemos ali empate técnico no segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), e no primeiro turno uma pequena diferença favorável a Lula. Embora alguns números variem, o que mostra no geral é que Lula continua sendo muito forte no Nordeste, mas houve uma redução na votação dele na região quando a gente compara com 2022. Além disso, Lula voltou a crescer um pouco entre as mulheres, um segmento importante. Em 2022, o então candidato Lula ganhou em dois segmentos: entre zero a dois salários mínimos e entre as mulheres. Na pesquisa passada, Flávio estava crescendo entre essas mulheres, mas parece que conseguiu estacionar. Mas atualmente, do meu ponto de vista analisando diversas pesquisas, me parece que o cenário está congelado.

Com o segundo turno entre Lula e Flávio consolidado, como ficam os chamados ‘candidatos nanicos’?

Num provável segundo turno entre Lula e Flávio, os partidos nanicos, as candidaturas menores vão ter que reavaliar o cenário e verificar se vão aliar-se com Flávio, à medida que são partidos de direita, ou se vão manter-se isentos no segundo turno. Isso vai ser fundamental para a vitória de Flávio ou de Lula num segundo turno, caso nenhum deles ganhe já no primeiro turno.

O crescimento de Flávio no Nordeste, uma região historicamente lulista, seria circunstancial ou pode ser consolidado e levá-lo à vitória?

Flávio não terá capital político suficiente para ganhar as eleições do Nordeste, tendo em vista que é um território onde o lulismo é bastante enraizado, tanto nas capitais quanto no interior. Alguns fenômenos explicam isso. As elites da coalizão do Lula deveriam estar fazendo campanha também, e não apenas deixando com que o candidato Lula fale sozinho. Em um artigo que fiz analisando seis mil posts exclusivos do Nordeste, observa-se que a maior parte dos aliados na coalizão lulista não estão inserindo campanha para o Lula nos seus materiais. Eles estão com uma estratégia de buscar o eleitor lulista, mas sem Lula nas campanhas digitais. Me parece que existe uma certa desorganização da coalizão de Lula, não apenas no Nordeste, mas em todo o país. Não é um abandono de jeito nenhum, mas um certo afastamento dessa coalizão em relação a Lula. Por que eles estão fazendo isso? Existe no Nordeste ainda um forte lulismo, mas me parece que não com a mesma máquina eleitoral anterior, e parece que o efeito do lulismo está sendo reduzido e que estamos chegando ao fim do ciclo do lulismo. Além disso, houve mudança no Nordeste em termos de geração, inserção de outros públicos, no que diz respeito à religião, e outras figuras políticas.

O segmento evangélico tem crescido cada vez mais. Qual o peso da questão religiosa nas campanhas?

Primeiro a gente tem que verificar que as igrejas evangélicas não são monopolizadas por um único discurso. Nós temos desde Assembleia de Deus até aqueles evangelhos considerados os ‘desigrejados’, ou seja, que são evangélicos, mas se afastaram da igreja, por desapontamento, desencantamento ou mesmo por não querer seguir uma determinada hierarquia. Contudo, temos uma linha chamada de teologia do domínio, um segmento que assegura que Jesus voltará e que temos que preparar a Terra para o retorno dele. É uma teologia bastante sofisticada, que disputa com várias correntes neopentecostais, mas que tem um projeto de poder político para a América Latina. Podemos ponderar que os católicos também têm suas ideologias, têm suas correntes conservadoras, mas ser conservador não significa ter e manter um projeto de conquista do poder político para implementar o reino de Jesus. Então a teologia do domínio quer assegurar suas falas com verdade na mídia, dominando as artes, dominando a educação, polemizando acerca de uma determinada visão de família.

O presidente Lula tem tentado conquistar esse segmento, mas parece que não tem conseguido. É tão difícil assim?

Esses evangélicos não serão conquistados por Lula, nem foram conquistados em 2018, onde 70% deles votaram em Jair Bolsonaro, abandonando Fernando Haddad. Em 2022, nós tivemos aproximadamente 70% dos evangélicos votando em Jair Bolsonaro. Ou seja, já se consolidou que o eleitorado evangélico, em que pesem as suas diversas correntes, tem uma ideologia mais próxima à direita. Então acho que não é uma dificuldade apenas do presidente Lula, é uma dificuldade com todos os discursos que sejam laicos, uma vez que algumas destas correntes pretendem quase que implantar uma teocracia baseada numa leitura do Antigo Testamento. Eu acredito que o eleitorado evangélico cresceu, hoje eles representam quase 30% da população brasileira, e acho que a esquerda laica teve oito anos para dialogar e tentar reduzir a influência das igrejas sobre esse eleitorado e nada fez. Então me parece que é pouco eficaz que, a dois meses das eleições, façam louvores ou se encontrem com pastores mais progressistas. Isso não vai impactar nada, ou muito pouco, na conquista desses eleitores, que já estão cristalizados na sua preferência por candidatos que representem a direita, ou a direita mais radical. E a explicação que eu tenho também é de foro sociológico. Se o estado não fizer políticas públicas nas periferias, levando saúde, lazer, educação para esses lugares, esses pastores, não por manipulação, oferecem, num mundo de insegurança e de violência, uma esperança que é celestial, acolhida e financeira, oferecendo empregos, assistência social, festas nas quais eles se socializam. É uma questão de estruturação, de socialização, e não uma questão apenas eleitoral. Sem políticas públicas, sem estado, esses atores das igrejas ocupam as periferias. O que é natural e até de fácil interpretação.

A primeira-dama tem buscado cumprir esse papel de aproximar Lula do eleitorado evangélico. Seria um erro então?

É um erro estratégico. Porque acaba que confunde a política com a fé, e nesse cenário aqueles que têm fé ocuparam a agenda e essa fé já é pró-candidatos da direita que estão enlaçados com os evangélicos. Então acho que uma foto de última hora é um equívoco, é ineficiente. Acredito que o presidente deveria focar mais em mulheres, à medida que ele perdeu um pouco de espaço entre as mulheres, e no grupo de zero a dois salários mínimos. Foi nesses segmentos onde garantiu a sua eleição em 2022.

Uma pesquisa bem feita ainda assim pode errar?

Posso responder que metodologias de pesquisas, quando bem elaboradas, quando a amostra está correta, quando o campo é bem coletado, os entrevistadores são bem treinados, quando existe ponderação nos dados, quando a amostra não funciona muito, a pesquisa pode chegar a resultados que nos dão uma fotografia do momento atual. Quanto à honestidade das pessoas que divulgam as pesquisas, às vezes o problema ocorre menos na metodologia da pesquisa e mais no modo como algumas mídias fazem a cobertura das pesquisas, não explicando o tempo todo que aqueles resultados correspondem a uma amostra com margem de erro, e que quanto mais distante a pesquisa do dia do voto, maior é essa margem de erro. Mesmo que estatisticamente a gente fale em 2% ou 3%. Se nós estamos há 30 dias das eleições, existem muitos eventos que podem ocorrer. Isso é clássico no Brasil.

Tivemos recentemente a questão do Supremo Tribunal Federal (STF) entrando na política e no cenário eleitoral. Em que parte esse tema poderá afetar as eleições?

Em relação ao STF, ao contrário da maioria dos analistas, eu acredito que prejudicou mais Flávio do que Lula. Ambos foram prejudicados, mas o Flávio um pouco mais. A minha hipótese é que isso fez com que a população olhasse de fora e pensasse que todos são corruptos, juízes, políticos, agentes de mercado. E isso despolitiza muito a campanha. Acho que isso vai impactar sobre a abstenção. Se as pessoas considerarem que todos são iguais e todos são corruptos, por que elas irão comparecer para votar? Vejo que cresce aí a ideia, que já foi usada em outras campanhas, sobretudo por Aécio Neves em 2014, do ‘mar de lama’ na política. Isso pode fazer com que o eleitor vote branco, nulo ou não apareça para votar.

É difícil para as pesquisas captarem a abstenção?

Eu acredito que está tendo muita apatia. Isso pode ser decorrente dessa percepção de que todos são corruptos, e isso desmobiliza muito a campanha. Vamos ver o impacto disso no comparecimento. Eu acredito que os eleitores de Flávio tendem a comparecer mais do que os eleitores de Lula. Isso aconteceu em 2022, e é um dado importante. As pesquisas não conseguem capturar a ausência do eleitor no dia das urnas. Quando se tem um momento de apatia produzido pela percepção da corrupção, isso pode fazer com que o eleitor não compareça. E o eleitor que menos comparece às eleições é o que mora mais distante das urnas. Que em sua maioria é o eleitor lulista, o eleitor mais pobre, o eleitor que pode ficar mais apático e mais desinteressado da política do que ele já é, ao passo que os eleitores vinculados aos grupos bolsonaristas estão sendo muito mais ativos e comparecendo mais às urnas.

A senhora mencionou a apatia. O que mais influencia no comparecimento ou não do eleitor à urna?

A distância entre a casa e a urna. Quanto mais distante, menor é a disposição do eleitor em votar, especialmente aqueles que têm renda de zero a dois salários mínimos, que usualmente foram o eleitorado lulista. Já eleitores mais ativistas e aqueles que têm preferência muito forte por um candidato tendem a comparecer mais. E outros elementos podem influenciar, inclusive algo que as pessoas pararam de pesquisar no Brasil e que é muito difícil de medir, que é a compra de voto. Isso é um fenômeno que ainda existe, não para presidente, mas para deputados federais e estaduais. Então o dinheiro também mobiliza o comparecimento. Aqueles que levam e buscam os eleitores também podem reduzir ou aumentar o comparecimento.

A gente vê a polarização entre Lula e Flávio, enquanto os candidatos de terceira via pouco têm crescido. O Augusto Cury (Avante) chegou a pontuar com dois dígitos e caiu. A que se deve isso?

Ele chegou a ter 11% da preferência do eleitorado e caiu bastante, para apenas 6%. Ele teve um voo de galinha, que é quando se tem um grande salto e depois cai. O que não é incomum entre os candidatos a presidente ou a prefeito. Tem muito a ver com o fato de inicialmente ele ser uma novidade, e as máquinas dos outros candidatos maiores ainda não funcionavam. O tempo da política efetivamente não havia começado. Mas ele cresceu porque apresentou algo muito interessante, alguém que tenta se colocar não com discurso de ataque, de guerra, mas de cura para uma sociedade enferma. A fórmula foi repetir outros outsiders que ganharam eleições em momentos de muita insatisfação, como João Dória em São Paulo e Alexandre Kalil em Belo Horizonte. Cury foi um pouco além, ele tentou ser um outsider dentro daquilo que é o afeto. Mas caiu nas pesquisas, porque é muito fácil no primeiro momento crescer sendo uma novidade, mas é muito difícil transformar visibilidade em intenção de voto, e foi disso que ele não deu conta.