Por Fernando Castilho
Foi assim: No dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, o então ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, desabafou ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy: “Nós fomos longe demais.” Era a materialização do que a própria presidente dissera numa entrevista, um ano antes, quando admitiu que “na eleição podemos fazer o Diabo”.
Sob o risco de perder a última eleição que disputa, o presidente Lula até agora “não fez o Diabo”. Mas ao decidir reajustar o pagamento do Bolsa Família em 15%, elevando o valor a partir de outubro, aumentando o custo do benefício este ano em mais R$ 5,8 bilhões e no ano que vem em mais R$ 22,2 bilhões, pode ter, como Dilma, começado a ir longe demais.
Espaço fiscal
O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, se apressou em dizer que, diferentemente de 2022 — quando então o presidente Jair Bolsonaro elevou de R$ 400 para R$ 600 o valor básico do mesmo benefício — agora o governo tem espaço fiscal. Seria tecnicamente a correção de 15% apenas para repor o valor da inflação desde a decisão de Jair Bolsonaro.
Pode ser. Mas a 17 dias da eleição, não há como não entender a decisão como um ato de campanha, ainda que, como disse o ministro, esteja sendo feita dentro das regras. Com a decisão do presidente, o valor mínimo que cada integrante da família receberá subirá de R$ 142 para R$ 164. A soma desses valores recebidos passa a ser, no mínimo, de R$ 691.
Sem demandas
Um fato que chama a atenção nas ações de Lula na campanha é atender a demandas que não foram apresentadas pelo governo. Não há informações, por exemplo, de pressão dos consumidores junto ao governo para acabar com a Taxa das Blusinhas que Lula decidiu fazer como ato de campanha. Como não foi comunicada nenhuma pressão para o reajuste do Bolsa Família.
O presidente parece ter esquecido que nos governos anteriores criou programas como o próprio Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Farmácia Popular e o financiamento ao ensino universitário atendendo a uma demanda social claramente identificada. Isso explica o sucesso. Entretanto, no terceiro governo, ele apenas atualizou os valores, cristalizando a ideia de pagar um direito social conquistado.

Opção de voto
Lula tem tido, nessa campanha, uma enorme dificuldade de transformar em opção de voto o conjunto de benefícios sociais que seu governo tem dado nos últimos meses, desde que aprovou a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, passando pelo Pé de Meia e todos os demais programas como Gás do Povo, Farmácia Popular, Luz do Povo e Reforma da Casa Brasil.
Porque hoje, há uma percepção geral de que tudo o que o governo entrega ao cidadão é apenas o cumprimento de um direito devido pelo Estado aos mais necessitados.
E como o benefício só cairá na conta entre o primeiro e o segundo turno, será um teste para saber se a nova geração de famílias que receberão esse dinheiro a mais vai se sentir no direito de votar no presidente.
Quem vai pagar
Porém a conta – seja paga por Lula ou por Flávio Bolsonaro – está precificada no Orçamento de 2027 e vai se somar ao pacote de mais de R$ 400 bilhões já anunciados onde estão gastos adicionais, como o Minha Casa Minha Vida (Faixa 1). Ou a liberação do FGTS para empregados do setor privado, assim como dinheiro do programa Nova Indústria, destinado às empresas com financiamento a juros subsidiados pelo BNDES, e que custará à União R$ 70 bilhões.
Endividamento
Para completar, Lula sofre de dois outros problemas. Um relacionado ao altíssimo endividamento das famílias cujos programas apresentados até agora se resumem a entregar uma prestação a perder de vista, sem que o endividamento caia, de fato, e a questão das bets, especialmente percebida pelas mulheres.
O presidente e seus assessores insistem que podem angariar prestígio com programas de renegociação de dívidas como se isso fosse suficiente para despertar uma sensação de alívio dos devedores. Não é suficiente porque depois de assinar o acordo só é perceptível um carnê de prestações com no mínimo 12 folhas. Até porque não entra dinheiro novo na conta dele.

Jogando nas bets
Já no caso das bets, que Lula aprovou sem perceber o que poderia acontecer dentro das famílias, a coisa escalou para uma tragédia social que nem ele nem seus assessores conseguiram dimensionar exatamente. O grande problema das famílias cujos membros jogam nas bets é que elas são as que têm renda entre um e cinco salários mínimos. Chefes de família e mães desesperadas que acreditam nos algoritmos das plataformas legais e ilegais no Brasil.
É o mesmo público do Bolsa Família e de todos os demais programas. São famílias que estão carregando a rotina de dever numa operadora de cartão, nas empresas de água e energia, no banco e com membros viciados em jogos. O aumento pode, na outra ponta, ser também uma forma de poder jogar mais.
Risco de perder
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