
Por Igor Maciel
A eleição de 2026 em Pernambuco começa a se dividir em duas disputas quase independentes. De um lado, Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) concentraram partidos, prefeitos e lideranças na corrida pelo Governo do Estado. Do outro, os grupos que protagonizaram a eleição de 2022, mas perderam espaço na sucessão estadual, procuram sobreviver através das duas vagas para o Senado. O resultado é uma disputa acirrada, fragmentada e muito menos previsível do que aquela pelo Palácio do Campo das Princesas.]
Concentração
Em 2022, a eleição pernambucana apresentou vários projetos competitivos. Marília Arraes, Anderson Ferreira, Miguel Coelho, Danilo Cabral e a própria Raquel representavam forças políticas com estrutura, partidos e pretensões de comandar o Estado. Quatro anos depois, praticamente todo esse espaço foi ocupado por duas candidaturas.
Raquel chegou à eleição como governadora, ampliou sua base municipal e reuniu uma quantidade expressiva de antigos adversários. João deixou a Prefeitura do Recife com forte capital eleitoral, assumiu o comando nacional do PSB e agregou o PT e outros partidos ao seu projeto. Quem não se acomodou em um desses dois palanques ficou sem condições políticas de construir uma terceira candidatura relevante ao governo.
A concentração produziu uma consequência previsível. Os grupos que perderam espaço na disputa principal passaram a enxergar o Senado como destino, compensação ou possibilidade de sobrevivência. São duas vagas disponíveis, mandatos de oito anos e uma eleição na qual estruturas políticas distintas podem disputar sem precisar apresentar um projeto completo de governo.
Marília, candidata ao governo em 2022, agora concorre ao Senado pelo PDT, na chapa de João. Humberto Costa busca a reeleição ao lado dela e tenta preservar a posição do PT como uma das principais forças do Estado. Na chapa de Raquel, Eduardo da Fonte (PP) representa uma estrutura partidária e municipal própria, enquanto Túlio Gadêlha (PSD) procura ocupar um espaço de diálogo com o eleitorado de esquerda e com os lulistas que apoiam a governadora.
Do lado de fora dos dois palanques principais, Mendonça Filho entrou como candidato avulso do PL. Sua presença ampliou a incerteza porque oferece uma alternativa ao eleitorado conservador e também atrai apoios de lideranças que permanecem com Raquel para o governo, mas não aderiram integralmente aos candidatos escolhidos por ela. Miguel Coelho (União) é a demonstração mais evidente dessa separação. Apoia a reeleição da governadora e pede voto para Mendonça.
Autonomia
A eleição para o Senado favorece esse tipo de combinação. O eleitor pernambucano terá dois votos e poderá distribuí-los entre candidatos de chapas diferentes. Não existe obrigação de votar na dupla apresentada pelo candidato escolhido para governador. Também não há transferência automática entre companheiros de palanque. Cada candidato precisa construir sua própria rede de apoios, convencer prefeitos e lideranças e disputar individualmente a preferência do eleitor.
Por isso, os candidatos ao Senado começam a desenvolver campanhas progressivamente autônomas. As chapas oficiais continuam importantes para garantir estrutura, propaganda e associação com os candidatos ao governo. Fora delas, porém, os apoios podem atravessar as fronteiras construídas nas convenções. É isso que dá a aparência de “bagunça” que se vê no palco politico.
Um prefeito pode pedir voto para Raquel e apoiar apenas um de seus candidatos ao Senado. Outro pode votar em João e escolher um senador de cada palanque. Lideranças que foram reunidas pelas candidaturas ao governo voltam a se separar quando precisam definir seus dois votos. A eleição estadual foi concentrada por cima e fragmentada por baixo.
Essa característica também impede que o desempenho dos candidatos ao governo seja reproduzido automaticamente no Senado. Esta deve ser uma das raras ocasiões em que um cabeça de chapa eleito não fará os dois senadores. Raquel e João podem concentrar a maior parte dos votos para o Palácio sem conseguir transferir a mesma preferência para as duplas que apresentam. Os candidatos ao Senado carregam trajetórias, rejeições, bases territoriais e vínculos partidários próprios. Alguns podem avançar em eleitorados que rejeitam seus companheiros de chapa. Outros podem perder votos dentro do próprio palanque.
Propaganda
A última oportunidade para João e Raquel chamarem o feito à ordem virá com a propaganda eleitoral. Se utilizarem seu tempo, sua imagem e sua capacidade de mobilização para pedir votos de maneira clara e recorrente aos dois candidatos de suas chapas, poderão reduzir a dispersão e tentar organizar a escolha do eleitor.
Não bastará exibir os quatro nomes juntos ou produzir fotografias de campanha. Será necessário explicar quem são os candidatos ao Senado, associá-los ao projeto estadual e ensinar o eleitor a repetir a combinação completa na urna. Com dois votos disponíveis, o pedido genérico tende a beneficiar quem já possui maior lembrança ou estrutura própria.
Se a propaganda produzir esse efeito, as chapas poderão recuperar parte da força perdida nos apoios cruzados. Caso contrário, Pernambuco terá duas eleições paralelas em outubro. Uma relativamente organizada entre Raquel e João para o governo. Outra aberta, fragmentada e imprevisível para o Senado.