Por Igor Maciel
Há uma eleição nacional até a próxima terça-feira (15). Flávio Bolsonaro (PL) tenta convencer o país de que Alexandre de Moraes é um problema de Lula (PT). Lula tenta convencer o país de que Moraes deve responder sozinho pelos próprios atos. E Moraes tenta convencer o país de que não é o centro do problema, mas vítima daqueles que atacam a democracia. A sessão do Supremo pode embaralhar os três discursos. Quando os ministros deixarem o plenário, talvez a pergunta já não seja quem conseguiu explorar a crise. Será quem conseguiu escapar dela.
Fronteira
A disputa presidencial chega a esse momento em equilíbrio suficiente para que qualquer mudança de ambiente tenha importância. O Datafolha mostra Lula (PT) com 39% e Flávio Bolsonaro (PL) com 35% no primeiro turno. Num confronto direto, o presidente aparece com 46% e o senador com 44%. A Quaest registrou empate de 41% a 41% no segundo turno. Quando a distância é tão curta, o pesadelo do Supremo não precisa provocar uma migração espetacular de votos para interferir na eleição. Basta mudar o assunto dominante da campanha e empurrar alguns indecisos para um dos lados.
É isso que está em jogo na sessão marcada para terça-feira. Os ministros devem decidir sobre a regularidade da ordem de André Mendonça que levou ao aprofundamento da análise do celular de Daniel Vorcaro, sobre o aproveitamento do material encontrado pela Polícia Federal e sobre o destino das informações que envolvem Moraes. A linguagem será jurídica. As consequências serão inevitavelmente políticas.
Investigação
Se o Supremo permitir o avanço das apurações, Flávio receberá uma munição poderosa. Poderá dizer que as suspeitas contra Moraes, tratadas durante anos como ataques de bolsonaristas ao Estado Democrático de Direito, foram consideradas suficientemente graves para serem investigadas pelo próprio tribunal. Não será preciso provar na terça-feira que todas as acusações estavam corretas. Para a campanha bolsonarista, a abertura formal da investigação já servirá como carimbo institucional sobre uma narrativa construída há muito tempo.
Isso permitiria a Flávio recuperar o discurso de perseguição contra Jair Bolsonaro, questionar novamente a atuação do STF nos processos envolvendo a direita e colocar Lula no mesmo campo político de Moraes. Há pouco mais de um mês, o presidente da República e Davi Alcolumbre estiveram num jantar na casa do ministro. Naquele momento, a proximidade parecia demonstrar força institucional. Agora, pode ser exibida como fotografia de uma aliança que Lula gostaria de apagar antes da eleição.
Proteção
O caminho contrário também oferece combustível à oposição. Se o material for invalidado, limitado ou arquivado sem uma explicação pública convincente, Flávio poderá acusar o Supremo de proteger um dos seus. Uma vitória jurídica de Moraes pode virar uma derrota política da Corte caso o país enxergue no resultado apenas ministros julgando um colega e poupando a instituição do constrangimento de investigá-lo.
Esse é o labirinto montado para terça-feira. Investigar Moraes fortalece a narrativa bolsonarista. Impedir a investigação também pode fortalecê-la. O STF precisará produzir uma decisão juridicamente sustentável e compreensível fora dos gabinetes. Se oferecer ao público apenas uma pilha de tecnicalidades, a oposição fará a tradução que lhe interessa.
Distância
Lula percebeu o tamanho do risco. Ao afirmar que Moraes e Mendonça devem responder caso tenham cometido irregularidades, tenta se afastar da defesa automática do Supremo. Também elogiou Edson Fachin pelo esforço de colocar ordem na Corte. É o presidente avisando que não pretende carregar na campanha o peso das escolhas pessoais de um ministro.
A dificuldade está no calendário. Lula tenta construir distância depois de anos de convergência política e institucional com o tribunal e poucas semanas após o jantar na casa de Moraes. Quanto mais grave for o resultado da sessão, mais difícil será sustentar que essa proximidade terminava na porta do Supremo. O presidente precisa separar sua candidatura de Moraes sem atacar a instituição que tantas vezes defendeu. É uma operação política delicada demais para ser executada no meio de uma crise que muda de forma todos os dias.
Vítima
Moraes também tem uma eleição própria para disputar, embora seu nome não apareça na urna. Sua defesa política depende de convencer o país de que as acusações fazem parte de uma ofensiva conduzida pelos mesmos grupos que “atacaram a democracia e passaram anos tentando enfraquecer o Supremo”. Nessa versão, investigar o ministro sem questionar a origem e a regularidade do material significaria premiar os adversários das instituições.
O pedido para que seu caso seja analisado junto com as acusações contra André Mendonça e para que todo o material tenha o sigilo retirado faz parte dessa reação. Moraes tenta ampliar o campo de batalha. Se todos forem obrigados a explicar suas relações, decisões e encontros, ele deixa de ocupar sozinho o centro da crise. É uma forma de defesa que pode diluir o desgaste ou espalhá-lo por toda a Corte.
Reversão
Flávio também não atravessará a terça-feira protegido por uma redoma. O material relacionado ao Banco Master alcança personagens ligados ao bolsonarismo, enquanto parte do caso “Dark Horse” permanece sob sigilo. A campanha de Lula já percebeu a oportunidade e cobra a divulgação completa das informações. Se a abertura defendida por Moraes trouxer elementos que atinjam Flávio ou seu entorno, o candidato que chega à sessão como acusador poderá sair dela dando explicações.
Essa possibilidade impede que a crise seja tratada como uma avenida de sentido único contra Lula. Vorcaro circulou por diferentes grupos de poder. Quando as portas forem abertas, ninguém sabe exatamente até onde os documentos chegarão nem quem conseguirá manter a pose de surpresa diante do que aparecer.
O Supremo entrará no plenário para decidir se Alexandre de Moraes deve ser investigado. Pode sair de lá tendo decidido, sem assumir o voto, sob qual crise o Brasil escolherá seu próximo presidente.